Kauai

Eu sempre acreditei em várias coisas e no final tinha que desacreditar na maioria delas.
Um ciclo, talvez, que mudaria quando eu parasse de dar confiança demais para as coisas e pessoas ao meu redor, entendendo que não se tratavam de respostas para as minhas perguntas, mas de vida acontecendo, jorrando e brotando a todo momento, bem na minha frente!

Quando conheci Kauai percebi um pouco de tudo isso. Ele era perfeito como nunca ninguém havia sido: com uma beleza de encher os olhos, sorriso arrebatador, palavras justas e belas (daquelas que você só houve nos sermões da sua avó) e uma vontade de viver absoluta.
Tínhamos tanto em comum que as vezes eu pensava estar me vendo no espelho, logo depois eu sorria (obviamente sem deixar que ele percebesse que eu estava completamente derretida) e fazia cara de quem estava entendendo tudo o que ele dizia ao invés de ter uma mente idiota cheia de corações e músicas de amor.

Eu estava tão, mas tão feliz, que o meu sorriso já não cabia na boca e se espalhava automaticamente para todos os cantos do quarto, da sala de estar, da cozinha, da minha rua e eu poderia jurar que ia até o Japão sem nem precisar de ponte aérea.

Mas o pior dia foi quando Kauai me olhou sériamente, como nunca o tinha feito (o olhar apaixonante não estava mais ali, era frio e irreconhecível) e me disse: “Não se apegue as coisas e nem as pessoas. No final você se frustra.”

Disse isso depois de tanto nos apegarmos, de tanto nos vermos, de tanto me ligar, de tanto conversarmos e discutirmos, como se eu fosse um brinquedo e bastasse apertar “desativar modo apego”.
Disse isso e sumiu, como poeira quando venta e o vento leva, espalha, some, evapora, voa, desaparece!

Eu passei dias parecendo que ia engasgar de tanto vazio na garganta, amando a minha cama, desejando meu quarto, meu sofá, filmes “água com açúcar”, brigadeiro, ouvindo músicas tristes, discutindo mentalmente comigo mesma, querendo ficar quieta e só dormir. Meu sonho era ser um esquilo e hibernar dentro de um tronco aconchegante e quentinho naquele inverno.


Foi aí que me dei conta de que era muito simples (tá, não era tão simples na prática).
Quando ele veio, eu deveria ter ido: eu deveria ter sumido, mudado de nome e fugido para o México.
Melhor assim, pelo menos agora não estaria doendo...

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