Respirar, Inspirar

Era mais um dia de férias e eu andava com minha avó pela praça de braços dados, passos curtos e ouvindo ela falar sobre assuntos corriqueiros, sobre como o preço do palmito era bem melhor na mercearia do que no mercado ou que minha roupa estava escura demais para o meu tom de pele. 

Não importava o assunto, eu estava ali para escutá-la e ela, por sua vez, estava ali para falar e falar e falar e falar mais um pouco (eu adorava saber que o falatório era genético, pelo menos tinha certeza de que não era adotada).

Por um momento vovó parou de andar e calou-se, virando-se automaticamente em minha direção para me encarar: “O que é que está acontecendo?” – disse ela sem nem saber de nada (eu poderia jurar que meus sorrisos eram os mais autênticos do Brasil).

Respirei fundo: “Nada demais, vó. Um daqueles dias que a gente acorda querendo voltar pra cama, sabe?” – dei um sorriso amarelo e olhei para o chão, voltando a prestar atenção nos nossos passos vagarosos.
“Vou lhe contar um segredo. Toda vez que estiver sentindo algo ruim olhe para a natureza e respire fundo por três longas vezes. Nunca falha!” – num tom animador, ela soltou um sorriso de satisfação e pôs-se a respirar profundamente para demonstrar, olhando para uma árvore da praça.

Ela tinha os olhos suaves, respiração tranquila, forte e a feição mais angelical que eu poderia me lembrar.


Hoje, passando pela praça, sentei no banco de pedra, olhei para a mesma árvore e respirei, respirei, respirei, inspirei, inspirei, inspirei até conseguir sorrir, me levantar e ir embora para casa.

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